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"My Blueberry Nights" de Wong-Kar-wai PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por João Gil Freitas   
Terça, 23 Setembro 2008 18:00

O filme exibido no passado Domingo pelo Cineclube de Guimarães, "My Blueberry Nights", do chinês Wong Kar-wai, não convenceu totalmente o público e a crítca, ficando uns furos abaixo do cinema experimental por que ficou conhecido. Um estreia morna em língua inglesa.

Atendendo à natureza do cinema de Wong-Kar-wai, não é de estranhar o carácter eminentemente experimental de My Blueberry Nights. O cineasta oriental, amplamente reconhecido pelo enorme contributo prestado ao cinema de Hong Kong, lança-se na aventura de filmar o seu primeiro trabalho em língua inglesa. Não sendo um passo em falso (não o foi), também não foi um passo totalmente acertado. É como se o realizador chinês cedesse parte da essência do seu cinema, fragmentando à partida o filme e transformando-o num objecto saboroso mas com pouca profundidade.

Os elementos básicos do seu cinema – personagens psicologicamente em mutação, confusas perante a vida e perante o que as rodeia; histórias com desenvolvimentos inexplicados; e, mais notoriamente, fortes efeitos visuais – estão lá todos. Mas parecem pouco relacionados, pouco concertados, como se não houvesse uma perfeita sintonia com o contexto geográfico, ou com o elenco propriamente dito. Basta dizer que My Blueberry Nights se apoia muito na beleza pouco comum da sua banda sonora, inquestionavelmente um dos grandes pilares que suportam a obra, fazendo até esquecer algumas das fragilidades da película. É um conjunto musical sólido e, mais importante que tudo, aplicado nos momentos certos, gerando uma grande cumplicidade entre a melodia e a cena em questão. A banda sonora é o tempero do filme; é aquilo que lhe confere um gosto especial, capaz de gerar no espectador um certo deleite em várias das suas passagens. Norah Jones não foi de encontro às expectativas em torno da sua estreia no grande ecrã, mostrando uma postura distanciada dos pergaminhos em que supostamente o filme assenta. É uma interpretação sem sal, num filme dominado pela doçura. O mesmo não se pode dizer – pelo menos não tão linearmente – das restantes personagens: David Strathairn, Rachel Weisz e Jude Law são traves mestras, algo acima de Natalie Portman, que em certa medida apanha por tabela da falência de Jones.

Wong Kar-wai parece outro realizador imitar Wong Kar-wai. Não obstante alguns momentos visualmente belos e deleitosos, surpreendentes até, o filme não é um todo uno, e não se compreende a curvatura da sua história. O que não convém, pois após uma fatia de tarte de mirtilo, muitas curvas podem enjoar.

Actualizado em Quarta, 24 Setembro 2008 20:12
 

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